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Por que parece que uma bolha nos envolve e as palavras parecem ser tão nossas, tão colocadas; por mais absurdo que seja, a gente consegue um entendimento impressionante. Falar sobre coisas da vida. Nossos medos repugnantes, sobre Olinda deliciosa que nos aconchega, e como sempre o mesmo assunto que nos atinge em todo, sobre as pessoas e paixões e amores. Dessa melancolia nata no fundo do poço que a gente exala. Porque daí se explica muita coisa, cada detalhezinho, cada medo que nos faz morrer por dias e viver um segundo só porque a gente viu os raios de sol entrando na folhagem. E voltar à ibernação ouvindo nosso repertório noir, meio cult, um quê de melancolia em sépia, desde Nina Simone, Tom Jobim, Chico Buarque, Adriana Calcanhoto e afins. Pensamentos.

Voltamos alguns assuntos passados, que tomamos como referências: Ah, mas e fulano? E aí começa uma dissertação tremenda. Ah, mas e fulana? e começamos a dissertação, repuxando lá no fundo do copo amargo os amargos e doces dessa vida jovem, meio velha, meio retrógrada e adoravelmente sofrida." Eu não sei, não sei no que sofri mais, acho que daquela vez foi muito pior...a gente acaba criando anti-corpos. " Mas que graça tem essas pessoas normais e felizes?" "Bom" mesmo é sentir aquele prazer na dor, na tristeza. É que aí sempre pensamos que isso pode nos render um bom texto, uma porcaria qualquer que nos satisfaça. " Mas estamos bem..." " Sim, estamos". " O que será agora?" " O que será depois? O meu próximo? " "A sua próxima?" . E todo um projeto meio mal feito de vida, porque, de repente, sentimos vontade de casar e ter filhos. Não eu com ele, por favor. ( embora tenhamos nos questionado algum dia no passado).

Ah, como é chato começar tudo de novo" "Não é? Não to pra isso não" "Nem eu, não quero mesmo, essa mesma ladainha de começar desde o começo, que preguiça" " Eu quero uma pessoa só e pronto, nada de ficar procurando em todo mundo alguma coisa meio absurda" Ficamos conversando sobre tanta coisa, sobre nós mesmos, as pessoas, aquele papo denso que juntamos pra falar um pro outro, mas por incrivel que pareça, soa tão natural que até chega a ser leve e alegre. Sobre como a vida nos leva, jogados, sem absolutamente plano nenhum. " Mas isso não é bonito? Essa chuva, esse sol raiando, a trilha..."
-Não é bonito? - Oras, cada um com suas crises.
- Ah, eu te acho muito mais bonita do que ela.
- Sério? Nossa, sou tão sem graça e ela era tão... prática, selvagem.
- O que importa é que agora estou bem melhor, nossa... e isso já faz um ano.
- E eu reclamando de três meses. ( risos) Mas acho interessante, porque não tínhamos os mesmos gostos.
- Eu e a P. também. Ele não tinha essa coisa densa?
- Um pouco.Ele era alguém normal, era prático também, sem poesia, nem literatura, não tinha essa coisa literária assim, que nem a gente.
- Que coisa. Esse mundinho.
E tantas conclusões, tantas coisas que ficam no ar, uma palavra que domina todo pensamento.


-Sabe, sinto saudade da gente, encolhidos,bebendo cerveja, na janela olhando as luzes laranjas dos postes, folheando alguma revista, comentando aquele livro, coisas absurdas tão nossas, tão eu, tão você, meu querido. Coisas banais de jovens. Coisas aleatórias que guardamos e achamos que aquele detalhe faz a diferença,que esse livro é maravilhoso, que aquele filme é tããão legal e você sempre com o seu violão, .
E eu te disse que você me foi um marco na vida. Muito do que gosto hoje, se eu já gostava, passei a apreciar mais, e juntamos nossos gostos tão semelhantes, que nos deixaram abismados, porque tanto eu quanto você, nessa cidade que tanto reclamavamos, achamos que nunca encontraríamos alguém que gostasse de Nina Simone ou Frank Sinatra, alguém que lesse Lolita . E a gente se encontrou, entre uma carteira, entre bilhetinhos espantosos e a partir daí é que nossa poesia e densidade se juntou e sofrer não foi tão ruim assim, porque sabemos que somos felizes, mas sempre com essa agulhinha no peito, esse incômodo eterno que embeleza a vida.
.ao som do silêncio

é sempre bom encontrar você meu velho amigo.

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