Pkena_notaveL
Ela queria escrever.Escritora deve ser interessante. Quem sabe ser nada e sair pelo mundo como uma garota que sabe apenas o nome da rua onde mora. dezenove anos e passava horas e horas na escrivaninha,pensando e rabiscando papéis. Idéias iam e voltavam. A luz fraca,a cadeira dura,a mão num tremor de angústia.

Jacqueline, deixe-me pensar, poderia ter cabelos muito compridos,ou cabelos curtos com um óculos moderno listrado de vermelho e branco no aro. Jacqueline é uma menina que eu queria conhecer. Jacqueline deve adorar se aventurar nela mesma. E é também o que eu quero,aventurar-me nela. Será mesmo que ela usa óculos de aro listrado?

A vida dela é uma música deliciosa que me deixa a pensar se eu também não tenho trilha sonora. É calmo no começo,e eu percebo que a vida dela não é tao monótona assim.

Ivor poderia ser um suposto namorado. Mas creio que o rosto dele,apesar de bonito,esconde muitas infamias. Disseram-me de um conto,escrito por ela, no qual Ivor morreria de overdose.Overdose psicológica,porque ela falaria tantas coisas a ele que o deixaria completamente drogado. Uma droga psicológica. Nada de química ou erva natural. São palavras. Palavras que o atingem. Era Igor no texto. E Jacqueline era ela mesma,nua e crua na sua sanidade insana de escritora.

- Quero conhecê-la - digo a mim mesmo.

Talvez um dia. Ela agora,limpa a lente de seus óculos com aro listrado. Embaçado e engordurado. Enxuga o suor escorrido nos olhos com as costas da mão. E pensa que,se um dia ela tivesse que morrer por alguma coisa,essa coisa seria liberdade. Porque ela acreditava piamente na Liberdade. Batatinhas ou dinheiro?

- Jacqueline?


"É sempre melhor no feriado/Muito melhor no feriado/É por isso que nós só trabalhamos quando precisamos de dinheiro"


O que querem dizer com isso? Feriados são castos e entediantes. Não são entediantes porque são castos,mas são castos por serem entediantes. E a única coisa que ela fazia era escrever e escrever e matar as pessoas de overdose psicológica. Feriados ela ganhava dinheiro. Saía de casa muito raramente e bebia com os amigos. Não que ela adorasse fazer isso sempre,nem que gostasse de bebidas alcoólicas,mas,se eu a conheço pouco,ela faria isso por pura tridimensionalidade vital. Coisa que ela não faria escrevendo. É como se o mundo real fosse o mundo literário. E vice e versa. Mas ela precisa de dinheiro... e toma leite e limpa o óculos.

Jacqueline morreu mesmo aos dezenove anos. Overdose literária. Pelo menos na vida real...ela deixou confundir-se. É facto que ela ainda vive. Claro que eu não queria que ela morresse. Aliás,eu ainda nem a conheci, mas irei.
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